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Madame Aema – Netflix

Antes dos doramas, o regime militar usou o entretenimento para controlar a população coreana

Você sabia que um dos filmes mais famosos da Coreia do Sul nasceu em meio a uma estratégia do regime militar para manter a população distraída? A produção, lançada em 1982 e recentemente adaptada pela Netflix, ajuda a entender um dos períodos mais contraditórios da história do cinema sul-coreano.

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Na época, o país vivia sob o governo do general Chun Doo-hwan. Enquanto manifestações eram reprimidas e a censura eliminava qualquer conteúdo considerado ameaçador, parte da indústria cultural tinha permissão para produzir histórias românticas e/ou eróticas.

A política dos “3S”

Após o Massacre de Gwangju, em 1980, quando centenas de manifestantes morreram durante a repressão militar, o governo intensificou uma estratégia conhecida como política dos “3S”: sex, screen e sports (sexo, cinema e esportes).

O objetivo era estimular o consumo de entretenimento, incentivar grandes eventos esportivos (como preparação para os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988) e manter a sociedade voltada para temas considerados inofensivos ao governo. A estratégia costuma ser comparada ao conceito de “pão e circo”, em que diversão e espetáculos ajudam a reduzir a atenção sobre questões políticas.

Por que Madame Aema é um dorama proibido para menores?

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Censura abria exceções calculadas

Embora fosse extremamente rígida contra críticas ao governo e movimentos pró-democracia, a censura era mais flexível com produções de apelo romântico ou sensual.

Foi nesse cenário que surgiram os chamados ero films, filmes eróticos que conquistaram o público no início dos anos 80.

‘Madame Aema’ se tornou o maior símbolo desse período. O sucesso foi tão grande que originou uma das franquias mais longas do cinema sul-coreano, com doze continuações.

O que isso tem a ver com os doramas?

Apesar da comparação, os doramas nunca tiveram exatamente o mesmo papel dos filmes eróticos.

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A televisão era muito mais controlada pelo Estado e mantinha uma programação voltada para toda a família. Portanto, os dramas exibidos naquele período seguiam esse caminho.

Ainda assim, existe uma ligação importante entre aquelas produções e os doramas atuais: o entretenimento como forma de escapismo.

Após a redemocratização da Coreia do Sul, nos anos 1990, a censura política perdeu força e os doramas passaram a conquistar espaço dentro e fora do país. O erotismo deu lugar ao romance idealizado, que marcou produções como Winter Sonata, Autumn in My Heart e Full House.

Nas últimas décadas, esse escapismo ganhou novas formas. Séries como Crash Landing on You, Business Proposal, King the Land e True Beauty apresentam romances, universos luxuosos e personagens idealizados que permitem ao público mergulhar em histórias distantes da rotina.

A diferença é que, hoje, essas produções fazem parte de uma indústria criativa e de alcance global, não de uma estratégia estatal para controlar a população.

Revisitar o cinema produzido durante a ditadura ajuda a compreender como a Coreia do Sul transformou uma indústria proibitiva em um dos maiores fenômenos culturais do mundo.

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